American Factory – O Princípio do Fim?

Ewerton de Souza Henriques | 09/02/2020

Poderia ser apenas mais um dia de trabalho, talvez o último anterior ao natal de 2008, porém para os 2.400 trabalhadores da GM de Moraine, Ohio suburbio de Dayton nos Estados Unidos, representava o último dia de emprego na icônica fabrica que ao longo de 27 anos (1981-2008) produziu mais de 6 milhões de veículos.

O fechamento da fabrida de Dayton da GM foi retratado no documentário produzido pela HBO “The Last Truck: Closing of a GM Plant” de 2009 expondo a situação dos funcionários que em algumas situações dedicaram suas vidas a produção de automóveis naquele lugar e que se encontravam desemparados pela perda de um dos maiores geradores de emprego da região.

O declínio da industria automotiva norte-americana é fruto do processo de globalização da economia mundial, e encontrou seu ápice na crise econômica de 2008 que acelerou o processo de declínio da demanda pelos veículos norte-americanos.

Segundo o Relatório do Porto de 2005, as Três Grandes (General Motors, Ford, and Fiat Chrysler) possuíam uma desvantagem de custo frente a Toyota entre US$ 350 – 500, valor este que se agravava quando se comparava aos fabricantes chineses e indianos.

Além disso os norte-americanos produziam carros com alto consumo de combustível, o que acelerou ainda mais a decadência de seus veículos, em um ambiente de aumento do preço da gasolina provocado pelas guerras do Afeganistão, e Iraque.

Como tentativa de reduzir a vantagem comparativa estrangeira as industrias partiram para cima dos sindicatos buscando redução dos benefícios concedidos aos seus funcionários ao longo dos anos de gloriosos da manufatura norte-americana. Nessas negociações reduziram os salários dos funcionários enquanto assumiram compromissos relativos a pensões e assistência médica.

Esse movimento de reformulação das relações laborais é descrito é com maestria por Paul Davidson em “John Maynard Keynes”, que releva a pressão existente pela flexibilização das leis laborais como forma de padronizar as condições de trabalho e custos de forma a manter os níveis de competitividade, porém os defensores dessa padronização querem fazê-la por baixo, e não por cima, ou seja, em vez forçar as economias que possuem relações trabalhistas inadequadas a alterá-las nos mesmos padrões defendidos pelos países defensores do bem-estar social de suas populações, preferem reduzir os freios legais que existem para proteger as condições laborais da população,

Segundo estes economistas “o pleno emprego só pode ser alcançado se os sindicatos de trabalho se tornarem impotentes, se a rede social de segurança existente for desmantelada etc., até que as condições de trabalho nas nações desenvolvidas sejam equivalentes às condições de nações menos desenvolvidas, como a Índia, a China e outros países asiáticos com grandes números de trabalhadores dispostos a trabalhar por salários extremAamente baixos, bem como a obrigar as suas crianças a trabalharem em condições de trabalho inseguras e onde são exploradas” (Paul Davidson)

Às negociações não conseguiram alcançar esse objetivo e diante da impossibilidade de se manter funcionando a pleno vapor, algumas plantas de produção de automóveis foram desativadas como parte dos planos de recuperação das Três Grandes. E esse plano incluia o fechamento e a consequente demissão dos 2.400 trabalhadores da fabrica da GM de Dayton.

Em 2014, um sinal de esperança ressurgia para os trabalhadores demitidos da GM, a abertura da fabrica da Fuyao Glass (fabricante chinesa de vidros automotivos) no mesmo local da antiga fabrica da GM.

Apesarem de terem vistos seus salários corroerem nessa transição (de US$ 29 para US$ 12,84) os trabalhadores estavam crentes que ao sair do desemprego sua situação iria melhorar que os “anos dourados” iriam retornar, porém não é isso o que ocorre, como demonstra o documentário “Industria Americana” fruto da parceria do Netflix com a produtora de Barack e Michelle Obama.

O que se vê ao longo do documentário, talvez possa ser o sonho dos economistas citados por Davidson, porém encontra-se bem longe do ideal de trabalho e sociedade que buscam os trabalhadores norte-americanos da Fuyao.

Do ponto de vista do Cao Dewang, presidente do Fuyao Glass Industry Group, e dos trabalhadores chineses contratados para “educar” os trabalhadores norte-americanos, os métodos, hábitos e regras de segurança dos norte-americanos tornavam-os preguiçosos e impediam o aumento da produtividade e dos resultados planejados pela empresa. Soma-se a isso o desejo de formação de um sindicato, que ia contra a logica da empresa, e que segundo seu presidente poderia até resultar no seu fechamento,

Essa dicotomia cultural entre os empregadores e empregados releva muito do que será o novo mundo do trabalho com a submissão dos países do mundo com a flexibilização das legislações trabalhistas.

O documentário mostra que o resultado da nova empresa depende disto, e que ao alcança-lo permite um grande elevado de competitividade que expulsa do mercado não apenas as fabricas que não o adotam como todo o modelo de proteção social existente.

O que torna a história mais dramática neste ponto de vista, é que a GM é um dos clientes da Fuyao, ou seja, indiretamente os trabalhadores continuam contribuindo para a produção de veículos da marca, porém em condições de trabalho muito diferentes, e desta vez não sindicalizados, o mesmo que ocorrem com 60% dos produtos adquiridos pelas Três Grandes.

Mas do que um grande documentário “Industria Americana” revela um processo decadente das relações de trabalho, que traz enormes consequências como a incapacidade dos trabalhadores de recuperarem as condições de vida anterior, o que demonstra que apesar de haver emprego, este será incapaz de propiciar mobilidade social e redução da desigualdade. Seria o fim do “American Dream”?

Recomendação de Leitura: A Desindustrialização dos EUA: make America great again! | Paulo Gala

Ewerton de Souza Henriques escreve semanalmente neste canal.

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